Como produzir um bom laudo neuropsicológico?

Um laudo ou relatório neuropsicológico é um documento que contém procedimentos e conclusões produzidas pela avaliação neuropsicológica. O relatório neuropsicológico é o produto concreto produzido pela avaliação e que será utilizado não só pelo paciente e sua família, mas também por toda a equipe de profissionais já, ou futuramente, envolvida com o caso. Todo o material utilizado para produção do relatório é subsidiado pelos dados colhidos e analisados na história clínica, observações do comportamento e testagem com base no referencial técnico-filosófico e científico da neuropsicologia (Strauss, Sherman & Spreen, 2006).

Não existe um modelo padronizado, contudo, instruções e direcionamentos podem ser encontrados segundo Kochhann e colaboradores (2016). Ademais, sabendo que a neuropsicologia é uma área interdisciplinar, cada profissional deve seguir os princípios éticos de sua profissão. O objetivo desse texto é pontuar algumas características importantes do relatório a fim de evitar alguns erros comuns.

Um dos pontos mais importantes é a linguagem. Todo relatório precisa conter uma escrita neutra, sem conclusões pessoais ou de senso comum e o mais compreensível possível para não especialistas. No entanto, o neuropsicólogo deve usar sim uma linguagem técnica. Uma solução para este ponto é definir os termos específicos da área. Lembre-se: a avaliação neuropsicológica é um procedimento objetivo e todas as informações precisam, necessariamente, de uma sustentação empírica. Além disso, só devemos descrever as informações necessárias para o entendimento do caso e o motivo da solicitação da consulta. O relatório não pode conter informações que possam constranger ou expor demais o paciente e sua família, já que ele é um documento que será lido por outros profissionais.

Outro ponto importante diz respeito à ordem dos testes na parte que descrevemos os resultados. A sugestão é organizar os testes por domínio de funcionamento (funções cognitivas) do mais geral para o mais específico. Lembre-se de agrupar os testes/tarefas que avaliam as mesmas funções. Não são todos os casos que exigem a avaliação de todos os domínios cognitivos, isso depende da demanda e perfil do paciente. Ademais, a graduação de origem do neuropsicólogo influencia os domínios avaliados pelo profissional. Por exemplo a avaliação da inteligência é restrita aos psicólogos (Angelini et al., 2012).

Por fim, gostaria de ressaltar o ponto de conclusão que precisa ser baseada na história clínica, testagem (tarefas e escalas) e observação do comportamento. O procedimento básico que direciona qualquer avaliação neuropsicológica é o teste de hipóteses (Bertola et al., 2015; Réa-Neto, 1998). Uma hipótese é corroborada ou descartada com base em premissas (Halpern, 2002), que são os fatos objetivos encontrados durante a avaliação. Lembre-se: não se deve concluir ou diagnosticar com o foco apenas em um aspecto e muito menos com base em um teste. A avaliação deve ser vista como algo amplo, global e contextualizado na vida do paciente em questão (Strauss et al., 2006).

Ainda sobre as conclusões e interpretações, destacamos um erro frequentemente cometido. A neuropsicologia por si só não é uma teoria, mas sim um método de análise das relações entre as estruturas cerebrais e processos mentais (Gazzaniga, Ivry & Mangun, 2006). Podemos atribuir uma característica/prejuízo de um nível inferior ao mau funcionamento de um nível superior, mas não o inverso. Isso quer dizer que o prejuízo em um domínio cognitivo específico não pode ser relatado como decorrente de danos estruturais no cérebro - conclusões sobre a estrutura cerebral só são possíveis através de exames de neuroimagem.

As condutas sugeridas são organizadas em ordem de prioridade. A consulta a um especialista médico é a primeira a ser listada, seguida das outras sugestões de intervenções técnicas (psicológica, fonoaudiológica, psicopedagógica, terapia ocupacional, etc…). Caso o paciente já participe de algum tipo de intervenção, é importante indicar se é sugerida a continuidade ou não desse tipo de tratamento. Quando possível, descreva sugestões de manejo comportamental cabíveis ao caso.

O relatório neuropsicológico é a concretização do serviço de avaliação. Ele se reveste de funções clínicas, terapêuticas e será subsídio para as medidas subsequentes na condução dos casos clínicos. Um bom relatório é um recurso não só para o paciente, sua família e profissionais envolvidos, mas também atende a finalidade de divulgação do trabalho do autor.

Referências:

Angelini, A. L., de Souza, M. P. R., de Fátima Guareschi, N. M., & Tavares, M. (2012). Conselho Federal de Psicologia-Entrevista com o Psicólogo Arrigo Leonardo Angelini. Psicologia Ciência e Profissão, 32, 318-327.

Bertola, L., Júlio-Costa, A., & Malloy-Diniz, L. F. (2015). Como elaborar um estudo de caso usando a estatística. Neuropsicologia: Aplicações clínicas.

Gazzaniga, M. S., Ivry, R. B., & Mangun, G. R. (2006). Neurociência cognitiva: a biologia da mente. Artmed.

Halpern, D. F. (2002). Thought and knowledge: An introduction to critical thinking. Routledge.

Kochhann, R.; Gonçalves, H. A.; Zimmermann, N.; Fonseca, R. P. (2016). Como elaborar um laudo em neuropsicologia. In: L.F. Malloy-Diniz, P. Mattos, N. Abreu, D. Fuentes (Orgs). Neuropsicologia: aplicações clínicas. Porto Alegre: ARTMED.

Réa-Neto, A. (1998). Raciocínio clínico-o processo de decisäo diagnóstica e terapêutica. Rev. Assoc. Med. Bras.(1992), 44(4), 301-11.

Strauss, E., Sherman, E. M., & Spreen, O. (2006). A compendium of neuropsychological tests: Administration, norms, and commentary. American Chemical Society.

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