Diagnóstico: fazer ou não fazer, eis a questão

Qual a função do diagnóstico dos transtornos de aprendizagem? Há quem diga que ao diagnosticar as crianças “o estigma da doença faz uma segunda exclusão dos já excluídos – social, afetiva e educacionalmente”¹. Assim, enquadrar estes alunos acabaria por segregá-los. Mas há vantagens em categorizar? Imagine se as aulas não fossem categorizadas por disciplinas e no meio de uma equação algébrica encontrássemos as regras ortográficas?! Quanto tempo perderíamos no processo de aprendizagem, não é mesmo?

 “Uma vez classificadas como “doentes”, as pessoas tornam-se “pacientes” e consequentemente “consumidoras” de tratamentos, terapias e medicamentos, que transformam o seu próprio corpo no alvo dos problemas que, na lógica medicalizante, deverão ser sanados individualmente.”¹

A lógica é exatamente o contrário do que se propõe. Vejam bem, se eu tenho um grupo de crianças que se parecem (estou dizendo se parecem, não que são iguais!) em seu processo de aprendizagem, significa que podemos pensar em práticas pedagógicas mais adequadas para aquele grupo de alunos. E isso vale para os dois lados da curva: se eu tenho um grupo que possui altas habilidades, é importante que essas crianças sejam estimuladas em maior nível a fim de proporcionar o desenvolvimento de suas potencialidades. Da mesma maneira, crianças com dificuldades de aprendizagem não podem ser cobradas como a média da turma; elas precisam de um ensino especializado e focado em suas fraquezas para ressaltar suas potencialidades. Vale lembrar que não há um juízo de valor, não cabe dizer melhor ou pior. Trata-se de diferenças! O politicamente correto discute exatamente as diferenças e exige (a meu ver corretamente) que minorias tenham voz perante a sociedade. E por que isso não valeria para as diferenças individuais no processo de aprendizagem? Ao negar a existência dos transtornos de aprendizagem, há a tendência de uniformizar as crianças tratando diferenças individuais somente como problema social.

Aí entramos em um ponto delicado que precisa ser pensado numa óptica ampla (de maneira biopsicossocial, como está na moda dizer). Os problemas sociais existem sim e nunca vi ninguém negá-los, especialmente no Brasil. Entretanto, se considerarmos as crianças de escolas particulares (com melhores oportunidades de ensino)* e as crianças de escolas públicas, podemos verificar que dentro de cada grupo, existem aquelas que têm mais dificuldades de aprender e aquelas que se destacam. Ou seja, as diferenças individuais são independentes das oportunidades.

Todavia, não quero dizer que devemos simplesmente aceitar a desigualdade social; pelo contrário, são exatamente as questões sociais que elevam o diagnóstico a uma necessidade de ordem pública. Uma criança proveniente de uma família com recursos financeiros que apresenta dificuldades escolares terá acesso aos mais diversos profissionais (fonoaudiólogo, TO, psicólogo, psicopedagogo), independente se ela foi classificada como pertencente a um grupo ou não. Não importa se esta criança é disléxica, travessa ou o nome que você quiser dar; a família fará de tudo para promover este indivíduo proporcionando-lhe um aprendizado de qualidade e adequado a sua individualidade.

Por outro lado, para a criança sem os mesmos recursos, o processo de aprendizagem ficaria cada vez mais defasado e suas dificuldades seriam atribuídas à falta de oportunidades. Ok, a desigualdade existe, mas quem nega a importância do diagnóstico precisa lembrar que em uma sala de aula existem aqueles que conseguem aprender e aqueles com dificuldades (independente se de boa qualidade ou não o ensino, mas aí é história para outro post). Ou seja, a real “segunda exclusão” acontece no momento que você nega aos indivíduos menos favorecidos socialmente suas diferenças individuais e consequentemente a possibilidade de intervenção adequada e especializada. Transtornos de aprendizagem existem (há evidências neuropsicológicas, clínicas, neuroimagem e etc. Para mais informações leiam Frias e Júlio-Costa, 2013 ² ) e afetam entre 5 e 15% das crianças em idade escolar ³, ou seja, pensar em políticas públicas que atendam esta população é viabilizar o direito de uma minoria que precisa ser respeitada e entendida por suas características específicas.

Voltemos à questão do rótulo e vamos contrapô-lo à evidência da diversidade individual. Ao invés de chamar alunos com transtornos de aprendizagem de preguiçosos, capetas, burros e outros rótulos usualmente atribuídos a essas crianças, podemos classificá-los dentro de categorias nosológicas com validade científica ³. Isso não significa “patologizar” ou reduzí-las a um diagnóstico, mas sim dar a oportunidade de o indivíduo entender-se como um todo. O diagnóstico não é o que a criança é no sentido de limitá-la, mas faz parte de quem ela é. Todos nós temos nossas potencialidades e fraquezas e entendê-las nos ajuda a atuar no mundo de forma a promover cada vez mais nossos pontos fortes e compensar de alguma forma nossos pontos fracos.

Por fim, gostaria de ressaltar a importância de um diagnóstico responsável. Cabe ao profissional que se propõe a trabalhar nesta área, fazer uma boa formação, com atualizações constantes. Além disso, não se pode perder de vista as questões contextuais de cada criança e o quanto aquele diagnóstico vai impactar sua vida. Enfim, o diagnóstico deve ser feito com o intuito de melhorar a qualidade de vida das crianças e estimulá-las cada vez mais.

Referências:

1.Disponível em: http://www.crpsp.org.br/medicalizacao/manifesto_forum.aspx, acesso em 26 de junho de 2016.

2.  Frias, L., & Júlio-Costa, A. (2013). Os Equívocos e Acertos da Campanha” Não à Medicalização da Vida”. Psicologia em Pesquisa, 7(1), 3-12.

3. Pennington, B. F. (2009). Diagnosing learning disorders. A neuropsychological framework (2a. ed.). New York: Guilford.

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