Existe dieta terapêutica para o autismo?


A resposta que a ciência apresenta é que são necessárias mais pesquisas controladas e com amostras maiores a fim de ser possível recomendar, definitivamente, uma dieta como ideal para diminuir os sintomas de autismo.


Apesar disso, existem dados consistentes que sugerem que algumas dietas trazem benefícios para indivíduos com TEA, enquanto outras podem contribuir para o agravamento de sintomas. Dietas livres de glúten e/ou laticínios, dieta cetogênica, ingestão de leite de camelo, probióticos e alimentos fermentados contribuem para reduzir os sintomas de TEA, como comportamentos repetitivos, dificuldades de interação social, comportamentos auto-lesivos, desregulação emocional e comportamentos agressivos (Ruskin DN et al., 2017; Frye RE et al. 2011; Pennesi CM e Klein LC, 2012).


Por outro lado, pesquisas sugerem que o consumo de açúcar, aditivos, pesticidas, ingredientes geneticamente modificados, alimentos não orgânicos processados e amidos de difícil digestão agravam os sintomas (Ruskin DN et al, 2017; Frye RE et al, 2011; Pennesi CM, 2012).


O que acontece no sistema gastrointestinal de indivíduos com autismo?


É muito comum que pessoas com TEA apresentem problemas gastrointestinais, como constipação, diarreia, esteatorreia, alergias/intolerâncias alimentares, transtornos metabólicos, deficiências nutricionais, transtornos alimentares e seletividade alimentar.


Esses problemas gastrointestinais prejudicam o equilíbrio de minerais e vitaminas no organismo, uma vez que a inflamação intestinal interfere na absorção de nutrientes. As deficiências mais comuns nos indivíduos com TEA são de minerais, como zinco, ferro, cálcio, magnésio, selênio, cromo, metilcobalamina (vitamina B12) e iodo. A suplementação de vitaminas e minerais possui evidências de redução de sintomas de TEA, como dificuldades cognitivas, transtornos do sono e os problemas gastrointestinais (Golik F., 2014; Adams JB e Holloway C, 2004; Romeo MG et al., 2011).


O que os especialistas da Nutrologia indicam?


As abordagens nutricionais atuais recomendam que agentes responsáveis pelo TEA que são consumidos através da comida - como aditivos, pesticidas, alimentos geneticamente modificados, soja, caseína, glúten, alimentos processados e/ou refinados, alimentos não orgânicos e açúcar - sejam eliminados das dietas e substituídos por alimentos orgânicos, vegetais, alimentos sem aditivos/glúten/caseina/soja, frutas, alimentos não refinados, proteína animal, sementes, castanhas e gordura sólida e líquida (Ruskin DN et al., 2017).


Qual o risco da ingestão de alimentos processados?

Os aditivos presentes em alimentos processados (conservantes, corantes e adoçantes artificiais) estão relacionados ao autismo em virtude do mercúrio presente em sua composição. O mercúrio é considerado uma das toxinas ambientais causadoras do transtorno - a etiologia do TEA, que consiste no estudo de suas causas, ainda é inconclusiva em afirmar o que causa o autismo, porém já existem diversos fatores de risco comprovadamente associados ao transtorno, sendo um deles a ingestão de mercúrio. Além disso, existem evidências de que alimentos naturais contribuem para prevenir e tratar o TEA (Privett D., 2013).


Mas o que famílias que adotam dietas específicas falam sobre os efeitos dessas dietas?


Em 2009, o Autism Research Institute (ARI) realizou uma pesquisa em que 27.000 pais foram perguntados sobre os efeitos de dietas específicas na vida de seus filhos autistas. Os dados coletados mostraram que, na implementação de cada dieta, algumas famílias relatam resultados positivos, negativos ou falta de resultado.


Alguns dados interessantes são:


➔ Dieta sem glúten: 55% dos pais relatam resultados positivos;

➔ Dieta sem laticínios: 55% dos pais relatam resultados positivos;

➔ Dieta sem glúten e sem laticínios: 69% dos pais relatam resultados positivos;

➔ Dieta sem açúcar: 52% dos pais relatam resultados positivos;

➔ Dietas com restrição de carboidrato: 71% dos pais relatam resultados positivos.


Então, qual a conclusão disso tudo?


Apesar de ainda não haver resultados que apontem uma dieta como ideal e benéfica para todo indivíduo com TEA, é importante considerar o impacto incontestável da alimentação na saúde e bem estar de qualquer pessoa. À vista disso, consultar um nutricionista ou nutrólogo é muito importante. Em uma abordagem nutricional, é benéfico examinar alergias, intolerâncias, alimentos consumidos e seletividade alimentar de indivíduos com TEA a fim de suplementar as deficiências nutricionais e energéticas e assegurar uma dieta balanceada que alivie seus sintomas, quando possível.


Entretanto, é essencial considerar outras variáveis, como a importância do consumo de determinados alimentos em contextos sociais, como festas de aniversário infantis e refeições em restaurantes. Uma dieta muito restritiva pode limitar as oportunidades de interação social e reduzir oportunidades de aprendizado de habilidades sociais. Portanto, é fundamental ser orientado por bons profissionais que considerem o desenvolvimento global do indivíduo como prioridade, buscando o equilíbrio de estratégias que lhes serão benéficas em todas as áreas.

Por fim, é importante alertar as famílias acerca de tratamentos nutricionais que prometem, isoladamente, tratar o autismo sem evidências científicas. Atualmente, os únicos tratamentos para o TEA que possuem o embasamento de décadas de robustas pesquisas científicas são as terapias comportamentais baseadas em ABA (Applied Behavior Analysis) e, portanto, essas devem ser o foco da intervenção da criança. As pesquisas sobre abordagens nutricionais apontam resultados promissores e têm ajudado muitas famílias, porém mais pesquisas são necessárias para sustentar - ou não - essas estratégias.


Observação: Existem mais fatores associados aos problemas gastrointestinais em indivíduos com TEA e mais abordagens nutricionais possíveis. Para se aprofundar no assunto, confira o artigo referenciado.


Referência: Hande Cekici & Nevin Sanlier (2017): Current nutritional approaches

in managing autism spectrum disorder: A review, Nutritional Neuroscience, DOI:

10.1080/1028415X.2017.1358481