O uso de cannabis pode diminuir o QI?

Resumo do artigo lançado este ano, 2021: “Intelligence quotient decline following frequent or dependent cannabis use in youth: a systematic review and meta-analysis of longitudinal studies”


A cannabis é uma das substâncias ilícitas mais usadas do mundo, tendo maior prevalência de uso por jovens. Infere-se que o consumo dessa substância na adolescência está associado a piores resultados de saúde mental, dificuldade nas relações psicossociais, transtornos psicóticos e dependência. Durante a juventude, o cérebro ainda está em desenvolvimento, sendo mais suscetível a danos quando há o uso de maconha. Corroborando com isto, alguns estudos mostraram declínio significativo no Quociente de Inteligência (QI), alterações morfológicas do volume cerebral e redução de massa cinzenta no hipocampo e na amígdala, todos associados ao uso de cannabis. Entretanto, revisões sistemáticas e metanálises anteriores a esse artigo mostraram resultados inconsistentes e heterogêneos sobre o efeito do uso da cannabis no funcionamento cognitivo e na inteligência. Desta forma, a revisão sistemática e metanálise escrita por Power et al teve como objetivo sintetizar quantitativamente a literatura examinando a associação longitudinal entre o uso frequente/dependente de cannabis e a mudança de QI em jovens.


Realizou-se uma busca pelas bases de dados Embase, PubMed e PsychInfo. Foram incluídos estudos de coorte prospectivos de jovens que não buscavam tratamento, mas que obtinham medidas de QI pré- e pós-exposição ao uso da maconha. Selecionou-se artigos com tais especificidades: o início do uso da substância deveria ter ocorrido antes ou aos 26 anos; os participantes deveriam ter medidas de QI inicial e de acompanhamento; e, era necessário pelo menos um teste verbal e de QI de execução.


Dos 2.875 artigos encontrados, sete foram incluídos na metanálise, contento 808 casos e 5.308 controles de quatro países (Reino Unido, Estados Unidos, Canadá e Nova Zelândia). A idade média do follow up foi de aproximadamente 18 anos em seis artigos e de 38 anos no outro. Em relação a mensuração do uso de cannabis, os estudos utilizaram tais medidas: (a) autorrelato de exposição total ao longo da vida, (b) autorrelato de exposição durante os últimos 6 ou 12 meses e (c) critérios clínicos para a síndrome de dependência da maconha nos últimos 12 meses.


° Após análises estatísticas, observou-se um efeito geral significativo para a associação entre o uso frequente ou dependente de cannabis e a mudança de QI, correspondendo a um declínio de 1,98 pontos no QI geral. Já em relação ao QI verbal, houve um declínio de 2,94 pontos. Entretanto, não encontrou evidência de mudança de QI de execução após o consumo de cannabis. O declínio no QI observado neste estudo pode ser explicado por vários fatores, como: um mecanismo de neurotoxicidade do desenvolvimento; influências negativas na vida social e não envolvimento educacional; efeitos residuais da cannabis; ou, por fatores de vulnerabilidade individual (capacidade de leitura na infância e/ou fatores genéticos).


Apesar desses achados, algumas limitações foram identificadas, como: não examinar funções executivas específicas; incluir artigos que não levassem em conta o uso recente de cannabis, assim os resultados encontrados podem ser devidos a efeitos residuais e não crônicos; e usar dados de autorrelatos, os quais podem ser enviesados. Entretanto, esta é a primeira síntese quantitativa longitudinal examinando tal associação. Faz-se necessário realizar novos estudos com períodos mais longos de acompanhamento para melhor avaliar o impacto da maconha no funcionamento e desenvolvimento cognitivo de adolescentes.


Referência:

Power, E., Sabherwal, S., Healy, C., O’ Neill, A., Cotter, D., & Cannon, M. (2021). Intelligence quotient decline following frequent or dependent cannabis use in youth: A systematic review and meta-analysis of longitudinal studies. Psychological Medicine, 51(2), 194-200. doi:10.1017/S0033291720005036

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