Por que os testes de atenção não bastam para o diagnóstico de TDAH?

As crenças equivocadas de que os resultados nos testes de atenção e funções executivas são necessários e suficientes para o diagnóstico do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) ainda são altamente alimentadas no âmbito clínico, sendo que a testagem ainda hoje é um dos principais motivos de encaminhamento para este diagnóstico. Diante disso, o professor Leandro Malloy-Diniz em seu vídeo-aula "O Exame Neuropsicológico no TDAH: O que estamos fazendo de errado?" para a Formação Continuada em Neuropsicologia (2019) apresenta os principais pontos levantados por Russel Barkley, um dos principais pesquisadores do TDAH, que faz enormes críticas a esta questão, levantando pontos cruciais a serem refletidos.

Primeiramente, é necessário questionar se de fato os testes comumente usados para este diagnóstico são acurados para que o clínico, a ponto de ser suficientemente capaz de decidir efetivamente se o paciente possui ou não o TDAH. Para responder esta pergunta, é fundamental considerar que o teste atua apenas como um complemento para a avaliação neuropsicológica clínica abrangente. Ainda por cima, estes testes são pouco eficientes para o diagnóstico do TDAH.

Segundo Barkley, entre 35% a 87% das pessoas com TDAH não apresentam nenhuma alteração em testes de atenção e funções executivas (FEs), o que significa que as chances de um falso positivo são altas ao utilizar estes testes para o diagnóstico. Além disso, existem outros transtornos psiquiátricos diferentes do TDAH que irão apresentar alterações em testes de atenção e FEs. Por esse motivo, o olhar crítico para estes resultados se torna fundamental na clínica neuropsicológica, tendo em mente o impacto de outros fatores (como o nível intelectual) no desempenho destes testes.

Além disso, principalmente no que tange os testes de FEs, existe um grande impasse relacionado à validade ecológica destes testes, o que cabe a seguinte reflexão: até que ponto eles são capazes de abarcar a dimensão transtemporal deste constructo um tanto complexo?

Uma das principais críticas aos testes de FEs aponta que os testes até então existentes não dão conta de englobar de forma eficaz os aspectos executivos da realidade prática, incluindo os aspectos mais "quentes" das FEs, ligados aos aspectos de cunho emocional (que são, por sua vez, comumente prejudicados em diferentes quadros do TDAH). Isso torna os instrumentos pouco úteis para predizer como o sujeito vai se sair em atividades no dia a dia (ex: gerenciar o tempo, cuidar de finanças, etc). Por esse motivo, o uso de escalas de autopreenchimento, em comparação aos testes, se mostram mais eficazes para diferenciar o grupo de indivíduos com TDAH do grupo saudável.

Com isso, Barkley conclui sua crítica alegando que avaliação do TDAH é acima de tudo clínica - sendo o dever de todo profissional manter um foco especial no nível funcional do paciente. Para tal, é fundamental se atentar principalmente aos sintomas e comportamentos dos pacientes, em conjunto com as informações acerca de seu histórico do desenvolvimento, histórico escolar, relatos de pais e professores, bem como o uso de escalas de avaliação de sintomas de TDAH.


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Referências Bibliográficas:


Malloy-Diniz, L (8 de Agosto de 2019). O Exame Neuropsicológico no TDAH: O que estamos fazendo de errado?. Formação Continuada em Neuropsicologia. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=JGUikoJDO0o&t=2112s>