Qual a relação entre Afantasia, Sinestesia e Autismo?

A afantasia é uma condição do neurodesenvolvimento caracterizado por um prejuízo na capacidade de formular uma imagem visual mental, necessário para imaginar, por exemplo, a figura de um pôr-do-sol. Duas outras condições do neurodesenvolvimento também relacionadas à capacidade de criar uma imagem visual mental são a sinestesia e condições do espectro autista. A sinestesia é um traço no qual as sensações se misturam, por exemplo, enquanto ouve uma música a pessoa sinestésica pode associar a melodia com cores. Essa condição é associada a uma capacidade de imagem visual mental maior que o esperado na população. O autismo, ou transtorno do espectro autista, é caracterizado por dificuldades no processamento social, comunicação, sensibilidade sensorial e déficits na imaginação. Essa condição já foi associada com baixa capacidade de imagem visual mental.


A capacidade de formular uma imagem visual mental já foi associada a vários aspectos importantes na vida cotidiana: memória autobiográfica, reconhecimento de faces, processamento de estratégias visuais e escolhas de carreiras. Esse estudo busca investigar se as alterações na imagem visual mental presente na afantasia podem estar associadas à sinestesia e ao autismo, considerando que as três condições do neurodesenvolvimento apresentam em sua fenomenologia alterações na imagem visual mental.


Estudos sobre a relação entre afasia e sinestesia apontam duas principais possibilidades: (a) se a imagem visual mental está ausente em pessoas com afasia e é aumentada em pessoas com sinestesia, então espera-se que pessoas com afasia não apresentem sinestesia, e vice-versa. (b) é possível que pessoas com afasia também tenham sinestesia, mas a afasia pode influenciar o tipo de sinestesia experienciada: sinestesia de projeção (experienciadas no mundo real, fora do corpo) e sinestesia de associação (experienciada por uma sensação interna). A distinção entre esses dois tipos de sinestesia é apoiado por evidências em medidas neurocientíficas e comportamentais, apontando que sinestésicos projetivos apresentam maior capacidade de imagem visual mental que sinestésicos associativos. Assim, a literatura propõe duas hipóteses: 1. sinestesia requer alta imagem visual; 2. pessoas com sinestesia de projeção tem maior capacidade de imagem visual que pessoas com sinestesia de associação. Essas hipóteses serão testadas nessa pesquisa utilizando pessoas com afantasia.


Em relação ao autismo, evidências apontam a relação entre essa condição e a baixa capacidade de imagem visual mental, apesar de existirem diferenças entre o conceito de imaginação e capacidade de imagem visual mental - por exemplo, pessoas com afantasia são capazes de usar sua imaginação mesmo sem conseguir mentalizar uma imagem. Para controlar essa diferença, nesse estudo é incluído uma pergunta no questionário de traços associados com autismo a respeito da “força” da capacidade de imagem visual mental dentro da subescala de imaginação. Dessa forma, os autores buscam investigar a relação entre o autismo e a afantasia através de uma baixa capacidade de imagem visual mental.


Esse estudo apresenta como objetivo investigar a relação entre afantasia, sinestesia e autismo através de dois experimentos. Os experimentos 1a e 1b explora a interação entre afantasia e sinestesia em duas amostras separadas: (a) membros da população geral recrutados da coorte de teste Generetion Scotland, e (b) um grupo de sinestésicos testados por meio da plataforma online Synesthesia Battery. O experimento 2 investiga a relação entre a afantasia e os traços associados ao autismo, considerando a possibilidade de imagens visuais baixas em ambas condições. A hipótese para esse segundo experimento é que os traços de autismo podem ser mais elevados em pessoas com afantasia do que controles da população geral.


No experimento 1a participaram 1285 pessoas Coorte do Generation Scotland Scottish Family Health Study. Os instrumentos aplicados foram: Visual Imagery Questionnaire (Questionário de Imagens Visuais) e o teste diagnóstico de sinestesia com grafema colorido. No experimento 1b participaram 16.246 pessoas que completaram a Bateria de sinestesia entre 2007 e 2018. Foram aplicados três instrumentos: (a) a avaliação objetiva para sinestesia grafema-cor, (b) o Questionário Projetor-Associador (PA), designando as pessoas sinestésicas como projetoras ou associadoras, e (c) o questionário de imagem visual (VVIQ-2). Para o experimento 2 participaram 118 pessoas com afantasia e 118 controles. O instrumento aplicado foi o Quociente de Autismo (AQ).


Os resultados do experimento 1a indicaram que não houve diferença significativa de prevalência de afantasia em grupo com sinestesia e grupo controle, sugerindo que a capacidade de imagem visual alta não é um pré-requisito da sinestesia, e que é possível pessoas com sinestesia terem pouco ou nenhuma capacidade de imagem visual. Também foi encontrado que o escore médio no Questionário de Imagens Visuais entre o grupo sinestésico e grupo controle eram estatisticamente equivalentes. Os resultados indicam que a sinestesia pode ocorrer concomitante à afantasia, sugerindo que a imagem visual mental não é necessária para que a sinestesia ocorra. Os resultados do experimento 1b indicaram que pessoas com afantasia e sinestesia têm pontuações de PA significativamente mais baixas (indicando traços de sinestesia associativa “mais fortes”) do que pessoas sinestésicas não-afantásicos. Esses resultados indicam que a presença de afantasia impacta no tipo de sinestesia experienciado (sinestesia associativa).


Os resultados do segundo estudo indicaram que pessoas com afantasia tiveram uma pontuação no AQ maior em comparação com os controles, e essa diferença foi significativa. Assim, os indivíduos afantásicos relataram significativamente mais traços associados ao autismo do que controles. Embora não seja possível tirar conclusões sobre diagnósticos clínicos de autismo baseado na seleção da amostra do estudo, os resultados mostram que pessoas com afantasia eram mais propensas a relatar níveis de traços de autismo sugestivos de uma condição do espectro do autismo em comparação com os controles.


Três limitações da pesquisa foram: 1. no experimento 2 os participantes do grupo controle foram recrutados de forma diferente que o grupo afantásicos; 2. não foi investigado casos clínicos de autismo, mas os perfis de traços AQ; 3. a afantasia foi diagnosticada por meio de medidas de autorrelato.


Dance, C. J., Jaquiery, M., Eagleman, D. M., Porteous, D., Zeman, A., & Simner, J. (2021). What is the relationship between Aphantasia, Synaesthesia and Autism?. Consciousness and Cognition, 89, 103087.