Saúde física em crianças com transtornos do neurodesenvolvimento

Resumo do artigo “Physical health in children with neurodevelopmental disorders” (Alabaf, S., Gillberg, C., Lundström, S. et al., 2019)


Levantamentos recentes apontam um aumento no número de crianças diagnosticadas com transtornos do neurodesenvolvimento e que também apresentam comorbidades físicas (Schieve et al. 2012). Além disso, segundo Gillberg (2010), é frequente a ocorrência de mais de um transtorno do neurodesenvolvimento na criança - o que Gillberg considera mais uma regra do que uma exceção. O objetivo do estudo em questão é identificar a prevalência de quadros como epilepsia, enxaqueca, asma, câncer, diabetes, psoríase, intolerância à lactose, diarreia, constipação, enurese diurna e encoprese em indivíduos com um ou mais transtornos do neurodesenvolvimento, tais como Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e Transtornos de Aprendizagem.


Estudos anteriores a este focaram nas comorbidades do TEA e do TDAH. Assim, o TEA é associado ao aumento da ocorrência de epilepsia, problemas gastrointestinais, transtornos alimentares, enxaqueca, asma, doenças autoimunes e psoríase; enquanto os estudos acerca do TDAH, apontam para um aumento da ocorrência de epilepsia, enxaqueca, asma, psoríase e enurese.


Em “Physical health in children with neurodevelopmental disorders” são apresentadas evidências de que crianças diagnosticadas com dois ou três transtornos do neurodesenvolvimento desenvolvem mais comorbidades físicas do que crianças com apenas um transtorno. Todavia, os autores ressaltam que não há diferenças na prevalência de comorbidades entre crianças com dois transtornos versus crianças com três transtornos. A grande contribuição científica realizada por esse estudo consiste em apontar que determinadas combinações de transtornos do neurodesenvolvimento estão significativamente associadas a comorbidades específicas, como:

- Indivíduos com TEA e Transtorno de Aprendizagem: prevalência 36 vezes maior de epilepsia, 6 vezes maior de constipação, 14 vezes maior de enurese diurna e 17 vezes maior de encoprese do que o grupo de comparação.

- Indivíduos com TEA e TDAH: prevalência maior de epilepsia, enxaqueca, asma, diarreia, câncer, constipação, enurese diurna e encoprese.

- Indivíduos com TDAH e Transtorno de aprendizagem: prevalência 15 vezes maior de diabetes do que o grupo de comparação.


Por fim, os autores citam diversos estudos que apresentam evidências correlacionando doenças físicas e funções cognitivas:

- Crianças com câncer que recebem quimioterapia na infância podem enfrentar efeitos sutis a longo prazo em sua atenção e funções executivas (Anderson and Kunin-Batson 2009). Também foi observada uma maior ocorrência de câncer em crianças com TEA (1,1%) e Transtornos de Aprendizagem (1,4%).

- Associação de condições inflamatórias maternas durante a gestação e a prevalência de transtornos do neurodesenvolvimento na criança (Ginsberg et al. 2017).

- Relações entre histórico de diabetes tipo 1 materno ou paterno e maiores chances de a criança possuir TEA (Atladottir et al. 2009).

- Alta ocorrência de doenças autoimunes, como hipotireodismo e febre reumática, em parentes de indivíduos com TEA - sendo inclusive maior do que em familiares de pessoas que apresentam de fato doenças autoimunes (Sweeten et al. 2003).

- Indivíduos com doença celíaca possuem 1,4 vezes mais chances de apresentar transtornos de humor, transtornos de ansiedade, transtornos alimentares, transtornos comportamentais, TDAH, TEA e deficiência intelectual comparado a população geral (Butwicka et al. 2017).


Diante disso, os pesquisadores ressaltam a importância dos profissionais de saúde que atuam na área de transtornos do neurodesenvolvimento possuírem conhecimento acerca da necessidade de avaliações médicas completas das crianças. Os autores também recomendam que os profissionais estejam clinicamente atentos à ocorrência de sintomas referentes às comorbidades citadas, fazendo perguntas específicas aos cuidadores a fim de compreender todo o quadro da criança e, dessa forma, realizar os encaminhamentos necessários.


Referência:

Alabaf, S., Gillberg, C., Lundström, S. et al. Physical health in children with neurodevelopmental disorders. J Autism Dev Disord 49, 83–95 (2019). https://doi.org/10.1007/s10803-018-3697-4