Será mesmo que vai dar tudo errado? Confrontando pensamentos ansiosos com a realidade

Cada vez mais a eficácia das terapias cognitivo-comportamentais tem sido reconhecida no tratamento de diferentes transtornos. De acordo com a teoria que sustenta as TCCs, as pessoas têm expectativas que não condizem com a realidade, e confrontar essas expectativas dando foco às inconsistências que elas apresentam leva a melhores desfechos.


O TAG tem como principal critério diagnóstico a preocupação excessiva, comumente direcionada a eventos irrealistas. Ou seja, pessoas comTAG constantemente vivenciam um sentimento de alerta para eventos negativos futuros, ainda que a chance real de acontecerem seja muito baixa. A preocupação característica da ansiedade não é apenas pensar sobre o futuro, mas fazer predições e/ou criar expectativas negativas a respeito do futuro.


Uma das técnicas atuais para atingir as preocupações e predições que não se concretizam se chama Diário de Preocupação (em inglês, Worry Outcome Journal – WOJ). Se trata de uma tabela (ou caderno) onde pessoas podem escrever suas preocupações do dia a dia, dar uma nota para o nível de estresse que ela está causando no momento, e seguir o curso dessa preocupação para ver se de fato ela corresponde com a realidade, no entanto, ainda há poucas evidências sobre o efeito dessa técnica em pessoas com Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG).


Esse tipo de técnica consegue mostrar o quanto uma pessoa com ansiedade se preocupa ao longo do dia, o quanto isso custa de tempo e energia para ela, e o quanto isso pode nem valer a pena a depender dos desfechos reais da situação. E, assim, espera-se que essa confrontação ajude a diminuir os seus níveis de ansiedade.


Para testar o quanto essa técnica pode de fato impactar na redução da ansiedade, LaFreniere e Newman (2020) fizeram o seguinte estudo: 29 estudantes de graduação com diagnósticos de Transtorno de Ansiedade Generalizada usaram o WOJ (Diários de Preocupação), ao longo de 10 dias, para elencaram algumas das suas preocupações que poderiam ser testadas depois.


Além de elencar as preocupações, os estudantes deveriam responder:

  1. Numa escala de 1 a 7, qual é o nível de estresse causado por essas preocupações;

  2. Quanto tempo essa preocupação tomou de você desde a hora que ela apareceu?;

  3. Qual é a probabilidade de essa preocupação acontecer, de acordo com sua intuições?;

  4. Qual é a probabilidade de outra pessoa, pensando racionalmente, se preocupar?;

  5. Se a pessoa mais racional do mundo desse uma probabilidade dessa preocupação se tornar real, qual seria?


As perguntas 4 e 5 se referem à probabilidade lógica e, juntas, elas chamam a atenção para a discrepância com a probabilidade emocional, representada pela pergunta 3.


Após 10 dias, eles responderam a um questionário sobre os sintomas de ansiedade e, após 20 dias, eles revisaram as preocupações que tinham escrito, e disseram se ela se tornou verdade e se ela foi pior, tão ruim quanto, ou melhor do que esperavam.


A análise desses dados mostrou que, de modo geral, mais de 91,4% das preocupações e predições negativas não se tornaram realidade. Apenas 8,6% das predições se tornaram real. Se considerarmos a média de cada pessoa, cerca de 89,6% das preocupações de cada pessoa não aconteceram e, para 7 participantes, nenhuma das preocupações se concretizou.


O nível de estresse médio que as preocupações causaram foi 4,51 – moderado a alto – e condiz com achados anteriores que apontam que as preocupações vêm, quase sempre, acompanhadas de altos níveis de estresse. O tempo gasto com essas preocupações foi cerca de duas horas para 43,12% dos casos e até o inteiro para 25,88% dos casos.


Os participantes da pesquisa também apresentaram probabilidades maiores de um evento negativo acontecer (62,09%) quando baseados em sua intuição do que quando pensavam logicamente sobre a preocupação (41,67%), mas esses índices ainda são muito maiores do que a realidade sobre as preocupações (8,6%), o que aponta para a percepção distorcida que muitas pessoas com ansiedade apresentam.


Ainda que tenha limitações como o tamanho amostral pequeno e pouco representativa, o estudo apresenta evidências preliminares - que devem ser aprofundadas futuramente - sobre o uso de uma das principais técnicas, e de baixo custo, da TCC no tratamento de pessoas com Transtorno de Ansiedade Generalizada, focando na busca de evidências que confrontam as crenças irreais dessas pessoas.


Referência

LaFreniere, L. S., & Newman, M. G. (2020). Exposing worry’s deceit: Percentage of untrue worries in generalized anxiety disorder treatment. Behavioral Therapy, 51(3), 413-423. https://doi.org/10.1016/j.beth.2019.07.003.